sexta-feira, 22 de março de 2013

O IMPÉRIO DAS ARMAS E O BRASIL ESCONDIDO. (Parte 1)


Por Clóvis Nunes


Enquanto os principais periódicos internacionais noticiam, com destaque, o debate sobre as crises financeiras que atingem diversos países do mundo, especialmente aqueles considerados potências econômicas, um dos setores da economia mundial prossegue inatingível, não sendo alcançado por nenhum tipo de crise. Falamos aqui das corporações empresariais que comandam a indústria das armas no mundo, que em vez de serem alcançadas pelas crises econômicas, estão de fato aumentando seus lucros e resultados financeiros.

As estatísticas revelam que a comercialização de armas e a prestação de serviços paralelos ao armamento estão na área das 100 principais empresas vinculadas à atividade. Chegaram ao faturamento de 411 bilhões de dólares em 2010, aumentando assim, em muito, a venda em relação aos anos anteriores.

Seguindo a mesma proporção de enriquecimento, o volume de transferência internacional no comércio de armas, entre os anos de 2006 e 2011, foi de 24% superior ao período entre 2002 e 2006. Neste universo, das 100 maiores empresas exportadoras de armas, 44 delas são norte-americanas, que concentram 60% do valor total das transações. Enquanto isso, as empresas europeias somam 30 do total, com os lucros de 29% apenas. E, por incrível que pareça, 44% das importações de armas de guerra são feitas pelos países asiáticos e da Oceania, seguidos da Europa (19%), Oriente Médio (17%), América do Sul (11%), e África (9%).

Os americanos lideram dominantemente a indústria das armas no mundo. A concentração é evidente, ao avaliar que, na lista das 10 maiores companhias de armas, o faturamento atinge 56% das vendas - o equivalente a 230 bilhões de dólares. Entre as 10, exatamente sete delas são americanas.

Em primeiro lugar está a Lockheed Martin, especializada em aeronaves de guerra, equipamentos eletrônicos bélicos e mísseis, com transações comerciais que totalizaram em 2010 cerca de 35 bilhões e 730 milhões de dólares. Em segundo lugar, nesse patamar das grandes, está a companhia britânica BAE Systens, com lucros na ordem de 32 bilhões e 880 milhões de dólares em 2010. Na realidade, das empresas envolvidas no negócio de armas, os americanos superam todas, inclusive a italiana Finmeccanica, que em oitavo lugar no mercado lucrou, em 2010, 14 bilhões e 410 milhões de dólares.

Armas leves e pequenas, mísseis, navios, aviões de última geração, radares, veículos blindados de diversos tipos, bombas e munições se combinam com serviços de manutenção, logística e inclusive treinamento para gerar esses lucros bilionários. Na verdade todo esse aparato comercial e empresarial gera lucros que jamais poderão ser atingidos por crises financeiras ou outros fatores da ordem econômica mundial.

O paradoxo dos paradoxos é que o negócio de armas e serviços militares ignora solenemente a existência de 2.5 bilhões de pessoas, em todo o planeta, que se encontram sobre os efeitos da miséria e da fome. E ainda mais incrível é que estas quantias manejadas nada têm a ver com a ameaça de recessão, o recente flagelo que já afeta várias economias da Zona do Euro.

Os dados abaixo - conforme indicação em nota no final deste artigo - demonstram com mais clareza tal situação: 

Um porta avião de nova geração do tipo CVN-78 custa 9,7 bilhões de dólares. O Governo Americano espera possuir três unidades nos próximos dez anos. 

A Lockheed Martin, em matéria de mísseis desenvolveu o Programa Trident II, com um custo de 53 bilhões de dólares, para vender cada unidade por 65, 7 milhões de dólares, sendo que os EUA contabilizam 561 desses pequenos nocivos mísseis.

A aeronave P-8A Poseidon, dedicada a patrulhar os mares e à luta antissubmarina custa 206 milhões de dólares cada unidade. O custo em pesquisas para ser desenvolvida e produzida foi em torno de 33 bilhões de dólares. Aviões de última geração como o F-35 custam a “bagatela” de 109,5 milhões de dólares, e o F/A-18E Super Hornets, a “preço de banana”, custa 90,8 milhões de dólares. Todos sofisticados dispositivos de morte, ou seja, a excelência da engenharia aérea a serviço da guerra no mundo.

O F-22 Raptor custa 330 milhões de dólares. É uma aeronave fabricada nos EUA pela Lockheed Martin, foi o primeiro caça de quinta geração a entrar em serviço. Sua missão principal é manter a superioridade aérea no campo de batalha, mas também possui capacidade secundária de ataque ao solo. É o avião caça mais moderno do mundo, não sendo superado por nenhum outro existente. Somente o custo em estudos e pesquisas para ser desenvolvido e produzido chegou a 62 bilhões de dólares. 


Aeronave F-22 Raptor – Fabricado nos EUA. - Custa 330 milhões de dólares 


Ele carrega metralhadoras M61A2 20 mm³ (com 480 projéteis), até oito mísseis ar-ar (sendo dois de curto alcance e seis de médio e longo) e mais dois mísseis AIM-120 AMRAAM, GBU-39 SDE e duas bombas de mil libras cada, GBU-31 GDAM, AIM-9M Sindewinder 3. Possui velocidade de 2448 Km/h e um alcance bélico de 3.220 km, podendo voar numa altura de teto máximo superior a 15.240 m.

Figura, também, nesse cenário de riqueza para a morte e exuberância para destruição, o submarino nuclear Classe Virgínia, com um custo unitário de 2,5 bilhões de dólares, capaz de transportar 38 tipos diferentes de armas, inclusive torpedos, minas e mísseis.


Submarino Nuclear Classe Virgínia, custa 2.5 bilhões de dólares. 

Pelo que se vê, basta alguém na terra de Tio Sam ou em outras nações do mundo pensar em guerra, fabricar e vender armas e depois financiar campanhas eleitorais milionárias - a exemplo de alguns senadores americanos - que não existirá nenhuma crise financeira mundial ou recessão certa! É lucro à vista e garantido!

E o que dizer do Brasil, o país que muitos pensam que é cordial? No mercado de armas, navega na correnteza do progresso bélico e na contramão da cordialidade. Além de ser o terceiro maior fabricante de armas pequenas e leves do mundo e o maior da América Latina, é reconhecido como campeão mundial por assassinatos em armas de fogo, em números absolutos. Segundo dados dos Ministérios da Saúde e da Justiça, mata-se um brasileiro a cada 15 minutos, 96 por dia e cerca de 40.000 por ano. Uma guerra civil não declarada. Durante os últimos 50 anos, vitalizada e impulsionada pelo Regime Militar e, sem lei por 40 anos para o controle, as indústrias de armas espalharam uma devastação de morte que vem crescendo vertiginosamente, numa escalada ainda incontrolável pela violência armada. Circulam hoje em nosso país, segundo pesquisas da ONG Viva Rio e do Ministério da Justiça, cerca de 16 milhões de armas. Sendo que 2 milhões estão sob o controle das polícias e 14 milhões, sob o descontrole da população. Enquanto a média de armas na mão da população dos países armados é de 40% - com exceção dos EUA - em contraposição com os outros 60% que estão nas mãos da polícia, aqui no Brasil, os policiais já levam a desvantagem de estar apenas com 10% contra 90% de armas sob o domínio da população. A consequência disto - ainda na invisibilidade para a grande maioria dos brasileiros - é a epidemia de homicídios, incontroláveis por todas as forças de segurança, os quais, os veículos de comunicação não param de noticiar.

Como se não bastasse, “o país do futebol”, que se prepara para mais uma Copa do Mundo e para encher de alegria milhões de brasileiros com as jogadas inesperadas dos grandes craques dos gramados, também esconde - nas suas entranhas econômicas - as elevadas cifras do faturamento da indústria de morte, que leva muitos a tristeza e a dor por outras jogadas infelizes: as que armas brasileiras irão produzir no coração das famílias de vitimas tombadas pela morte dos disparos realizados pelas milhares de armas, fabricadas debaixo da omissão e da indiferença das 190 milhões de vozes que mais gritam “gol” em todo o mundo. As armas brasileiras seguirão tirando vidas e provocando outros gritos de dor, ao redor do planeta, ferindo sem cura a alma dos que ficaram separados pela distância da morte que as armas impuseram. 


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